
O mundo louco em que vivemos tem destas coisas. No mesmo dia, duas histórias igualmente bizarras, mas que não podiam ser mais opostas.
Durante uma tarde, boa parte da América ficou suspensa a acompanhar o trajecto desgovernado de um estranho balão de ar quente nos céus do Colorado. Lá dentro, supostamente, estaria um rapazinho de seis anos, que nele entrara às escondidas do seu pai, construtor do dito balão. A angústia de quem estava de olhar preso aos ecrãs das televisões aumentava à medida que o tempo passava. Quando o balão aterrou num descampado sem sinais da criança, o mistério adensou-se e temeu-se o pior, ou seja, uma queda do menino para a morte. Algumas horas depois, o mistério resolve-se e respira-se de alívio: Falcon - assim se chama o rapazinho - tinha estado escondido num caixote da garagem da casa dos seus pais, durante todo aquele tempo. Aparentemente, tudo não passara de uma brincadeira de crianças.
Mas uma
entrevista à CNN revelou, inesperadamente, que se terá tratado, isso sim, de uma brincadeira de... adultos. A dado momento, Falcon, num daqueles momentos de sinceridade próprios das crianças, que tanto têm de ingénuo como de inconveniente, revela que o pai lhe dissera
"we did this for the show". A reacção visivelmente embaraçada dos pais não deixa grande margem para dúvidas...
É incrível até onde pode chegar a imaginação humana. Só para se poder ter direito a uns momentinhos de visibilidade, ser o centro das atenções, nem que seja por um efémero dia, nem que seja à custa de uma pobre criança. O deslumbramento da fama fácil. A América disfuncional no seu melhor.
Ora, na mesma altura, chegava-nos uma notícia chocante de Paris. José Gomes de Macedo, um emigrante português, era encontrado morto no seu apartamento... dois anos depois. Sim, dois anos, em que nem vizinhos, nem familiares, nem as autoridades francesas se mostraram preocupados ou interessados com a sua sorte. Esquecido, completamente. A mais pura das solidões numa cidade onde vivem milhões. Uma desumanização perturbante e comum a tantas outras cidades, onde cada vez mais cada um vive por si.
Relatos indicam que José era uma pessoa muito discreta, tendo-se isolado nos últimos anos da sua vida, afastando-se da família, inclusive. Nunca saberemos, mas, provavelmente, até teve a morte que desejava. Sentado no sofá, entregue apenas a si mesmo, o mais longe possível do mundo que estava para lá da porta da rua. Mas terá morrido sem saber que estava bem mais só do que alguma vez pudera imaginar.